quarta-feira, 2 de julho de 2014

SP: A cidade do Contra



São Paulo é, realmente, a cidade do Contrário. Enquanto, pelo mundo, é comum torcedores vararem a noite comemorando títulos de seus clubes, por mais inexpressivos que sejam, aqui é proibido tomar para si o uso do espaço público.

Primeiro foi a Avenida Paulista, tradicional palco de comemoração das torcidas paulistas. Depois de 2005, tornou-se proibido dirigir-se até lá para festejar entre comuns. Faz-se mais Arenas Anhembi, baladas fechadas e cercadinhos, onde possa ser possível manter os festeiros longe do povo, ou, o povo, longe de quem tem poder de festejar nesses ambientes fechados.

A ação policial deflagrada ontem, na Vila Madalena, apenas corrobora o despreparo das autoridades (para não dizer apenas da polícia) para lidar com pessoas. Nesse caso, estrangeiros. "Bem que o governo americano nos alertou sobre a violência da PM. O povo brasileiro é muito gentil, mas porque tratar a gente dessa forma. Só estamos festejando a Copa", foi o que disse um norte-americano à reportagem da Folha de SP.

Foi o Governo que trouxe a Copa, e seus turistas, para o Brasil. O nosso Governador, assim como o Prefeito de SP, moveu barcas para garantir a festa do futebol aqui na "paulistânia desvairada". Primeiramente, no distante Morumbi, posteriormente, na longínquo Itaquera. O lugar onde a bola ia rolar não importava. O importante mesmo era saber que a cidade receberia N mil turistas do mundo todo. Mas, para quê?

No mundo, assim como no Brasil, o gosto pelo futebol é universal. Foi-se o tempo em que o futebol era esporte para determinada cor e classe social (mesmo que, para frequentar o estádio, essa segregação esteja voltando). Usa-se o futebol na favela, no condomínio, no vídeo-game e no campo de barro. Consome-se futebol no boteco e no restaurante.

A "festa do futebol", que é a Copa do Mundo, é a maior garantia de que pode-se festejar com gente do mundo todo em função de um gosto comum. Vai além do estádio. Seria negligência pensar que pessoas do mundo todo viriam para cá para conhecer apenas o MASP, o Fasano e o A Figueira Rubayat. Em uma festa, o que se espera é conhecer pessoas.

O que está havendo na Vila Madalena não é culpa dos estrangeiros. Quem vem de fora, chega buscando opções de lazer na cidade. Se lá foi o lugar em que encontraram pessoas mais interessantes, uma festa mais animada ou liberdade para se divertir, a Administração Pública deveria acolhe-los nessa realidade e garantir a segurança para todos os que estão presentes, paulistanos ou turistas.

Agir com agressão à manifestação de alegria, mobilizada em forma de festa, em função de um denominador comum chamado futebol é, não só lamentável, como um desserviço que a cidade está praticando para a gentileza e cordialidade que a população vem tendo com os visitantes. Parece-me que, por falta de argumentos e inflexibilidade, tudo em São Paulo se resolve com tiro, bomba de gás e bala de borracha; sob a regência de nossa Polícia Militar.