quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Experiência de Viagem: relato da viagem de ônibus até a cidade de Lima, no Peru

Aquela quarta-feira de outubro começou como qualquer outra. Seria algo corriqueiro, não fosse por um simples motivo: seis horas depois eu embarcaria para a viagem mais longa da minha vida até o momento. Sempre viajei de ônibus pelo Brasil. Atrás de jogos do Sport Club Corinthians Paulista, já percorri os estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Goiás. Alguns por mais de uma vez. Também uma visita ao estado catarinense na formatura da oitava série escolar. Não imaginara o quando esta nova aventura seria importante para o meu crescimento; como da janela de um ônibus é possível enxergar além do que se vê. Não apenas o estado físico, mas a alma de um local.

A viagem de São Paulo a Lima, capital do Peru, foi concebida muito antes de ser efetivada. Estava eu envolto aos meus pensamentos solitários, em uma madrugada de abril, quando a questão do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da faculdade de Jornalismo surgiu em minha mente. Precisava decidir o que fazer. Algo que fosse ao mesmo tempo possível ser realizado em um tempo escasso, e com apenas minha participação, mas desafiador e incomum. Repentinamente, veio-me a ideia conhecida há cerca de três anos: vou contar a história da viagem ônibus até o Peru. Havia conhecido-a em uma reportagem do jornal O Estado de S.Paulo de agosto de 2011 e disposto-me a encará-la. Agora era a hora de por em prática este desafio. Um adendo: não iria a passeio.

Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia com
registro da vacina contra Febre Amarela e Passaporte brasileiro
Os quatro meses seguintes foram de pesquisas sobre o assunto e processos de viabilização do projeto. Em conversas com colegas (e até desconhecidos) percebi que o conhecimento desta modalidade viagem até Lima era quase nulo, o que deixou-me mais animado para criar meu documentário. Criei uma página no Facebook para divulgação do projeto e acompanhamento da produção. Com a grana curta, promovi uma campanha de crowdfunding [financiamento coletivo] de modo a viabilizar a proposta financeiramente. Ainda que uma prática ainda incomum no jornalismo, consegui arrecadar cerca de 35% do planejado para a execução deste TCC. Passaporte em mãos (ainda que não seja necessário), vacinação contra a Febre Amarela, passagem adquirida, câmeras, pilhas, bloco de anotações,  mochila... Vai lá, André!

Um misto de indiferença e medo tomava conta da minha cabeça do momento que saí de casa até a hora que cheguei ao Terminal Rodoviário do Tietê. Será que vai dar certo? E agora? Ah, vai ser tranquilo. Não tem erro. Mas e se não der? Só tenho uma chance. Não tem mais volta, é agora ou agora! Aquela uma hora e meia no saguão de espera antes do embarque pareceu-me uma eternidade. Com 30 minutos para seguir, fui à plataforma. Um caldo-de-cana para quebrar o gelo e retiro a câmera da mochila. Antes mesmo de entrar no ônibus já fazia imagens e despertava a curiosidade dos demais passageiros. Não demorou para que eu começasse a conversar com os novos companheiros de viagem.


Na Estrada

Sentado ao primeiro banco do setor superior do ônibus, uma placa de vidro era o que me separava do mundo lá fora. Uma visão panorâmica dessa aventura que iniciava-se no maior terminal rodoviário do brasil. Entre as 90 mil pessoas que circulam diariamente no Tietê, 23 acabavam de embarcar na maior linha que dali parte. 5.917 Km de estrada era o que estava a nossa frente. A poltrona livre ao meu lado não demorou para ser ocupada por um gaiato que, mesmo com sua passagem denunciando não ser aquela sua reserva, não deixaria escapar a oportunidade de lugar privilegiado no veículo, com vistas para a infinidade de experiências que estavam por vir. Seu nome: Luis Alberto. Peruano de 45 anos de idade, dos quais, quase 30 dedicados ao serviço missionário da Igreja Adventista do Sétimo Dia pela América do Sul.

Ao passo que o concretude paulistana cedia lugar ao verde interiorano, sr. Luis contava-me curiosidades de seu país e ensinava-me certos vocábulos em castelhano. Do outro lado do corredor, outro peruano (o qual confesso que não consegui guardar o nome, por era um tanto quanto peculiar) e sua namorada, Thaís, brasileira que iria conhecer a pátria de seu companheiro pela primeira vez. Enquanto nós quatro conversávamos à primeira fileira dos 46 assentos dispostos no veículo, a realidade do restante do ônibus não era diferente. A interação entre os passageiros é construída de forma natural, de modo que, durante as primeiras horas da viagem, todos ali trocavam experiências e expectativas.

Pôr do sol na rodovia Castelo Branco (SP)

O primeiro pôr do sol, ainda em terras paulistas, foi um momento de contemplação de tudo que eu tivera feito até o momento. Aquela primeira aula de Jornalismo; as narrativas em aulas de redação; o sr. Jorge da praça Benedito Calixto e seu "Museu da Voz"; as discussões políticas e sociais com colegas e professores, em sala ou no boteco; as aulas da "tia" Nadia, minha ex-chefe e madrinha de formatura; a corrida pela grana; a confiança de quem apostava no sucesso; tudo. Naquele momento, aquelas experiências eram canalizadas em um propósito maior. Levar à sociedade uma experiência sobre as condições encontradas pelo interior do Brasil, do Peru, da América do Sul, ao ser transportado em um ônibus, era efetivação do projeto de ser jornalista.

Após 6 horas e meia, fizemos a primeira parada para o jantar, por volta de 10h da noite, na cidade de Maracaí (SP). Ali foi o momento de conhecer mais pessoas e saber um pouquinho de cada uma. Família retornando a casa. Um jovem que queria sair da sua zona de conforto e conhecer novos lugares, outro que chegara a poucos dias da Argentina e, agora, iria a Cusco, comerciantes de mercadorias adquiridas nas regiões de comércio popular da cidade de São Paulo. Cada qual com sua história, mas muito semelhantes em sua essência.

Às 5 e meia da manhã do segundo dia, o sol despontava à leste da capital sul-mato-grossense , Campo Grande. Pelas estradas que cortam o Centro-Oeste brasileiro, pensar na música de Luiz Gonzaga, Vida de Viajante, é praticamente inevitável. Os versos "minha vida é andar por esse pais, pra ver se um dia descanso feliz, guardando as recordações das terras onde passei, andando pelos sertões e os amigos que lá deixei" preenchiam minha mente entre uma e outra paisagem. Cilos de grãos a perder de vista, enormes criações de gado, pequenas cidades e uma faixa de asfalto repartida por traços de tinta amarela, hora continua, hora seccionada, conduziam-me à uma realidade completamente distinta da São Paulo cosmopolita corriqueira em um cenário por vezes bucólico, por vezes intrigante e, definitivamente, apaixonante.
Claro, nós podemos!
Pastagens de criação de gado no Centro-Oeste


Assim foi por toda a quinta-feira. De Campo Grande a Cuiabá, cerca de 700 Km concluídos no fim da tarde. O cansaço da viagem começa a ficar aparente. Enquanto nas três telas de led do ônibus, filmes distraiam alguns, outros aproveitavam para dormir um sono frequentemente interrompido pelas ondulações e irregularidades da estrada. Duas paradas nesse intervalo. A primeira, ainda pela manhã, serviu apenas para um banho e escovar os dentes, além de esticar as pernas fora do ônibus. Nem café havia na lanchonete. 
Parada para almoço em Mato Grosso
À tarde, por volta das duas, já no estado do Mato Grosso, um merecido almoço. Em um restaurante isolado na aridez da beira da estrada, coma a vontade por 13 reais. Uma garrafa de coca-cola, dividida por outros viajantes, custou-me mais 1 real no rateio. Na capital, a Polícia Federal Rodoviária realiza uma parada inesperada. Estão fiscalizando possíveis casos de tráfico de drogas, de crianças, além de fugitivos da Justiça. Tudo certo com todos, seguimos em frente. Paramos novamente à noite, para o jantar, na cidade de Cáceres (MT). Para mim, apenas um refrigerante.



Almoço às 9 da manhã

Mal havíamos ingressado no estado de Rondônia, já no terceiro dia, o motorista encostou em uma parada na cidade de Pimenta Bueno. Diferentemente dos improvisos do Centro-Oeste, aquele era um lugar conhecido dos condutores e os atendentes do restaurante, acostumados a servir o almoço àqueles passageiros independente do horário. Uma mesa de self-service com oferta ilimitada por R$ 15,00. Quase todos serviram-se com pratos incrivelmente cheios. O motivo: a próxima oportunidade de se alimentar seria apenas à noite. São raras as situações em que como algo pela manhã. Soube da opção de fazer um prato mais modesto, com cobrança por quilo, que custou-me oito reais e cinquenta centavos. No sub-solo, o banheiro dispunha de chuveiros individuais, mas não por muito tempo. Em um lance de oportunismo, corri ao banho antes de "almoçar" e quando retornei com o equipamento de filmagem a realidade era outra: chuveiros e torneiras secas.

Pimenta Bueno (RO)
Diferentemente dos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, em Rondônia existem muitas cidades que podem ser consideradas grandes. Surpreendi-me, positivamente, com lugares como Cacoal, Ji-Paraná, Ariquemes e a própria capital rondonense, Porto Velho. Talvez por ignorância, ou preconceito, não imaginava lugares desenvolvidos à essa maneira na região amazônica. Que bom que o Brasil é capaz de provar que em sua imensidão, existem surpresas gratificantes. Mas não é só isso. Em Rondônia, também, foi bem possível conhecer um interior brasileiro muito precário. O subdesenvolvimento é bastante comum em comunidades dependentes da agropecuária, onde quem reúne as riquezas é somente o proprietário e muitos sobrevivem em pequenas cabanas em vilarejos de beira de estrada.


Mais um pôr do sol brindou-nos após mais da metade do trajeto percorrido. A planície amazônica, às margens do Rio Madeira, levou-nos à cidade de Jacy-Paraná (RO), onde foi realizada a segunda parada para alimentação do dia. O forte calor somado à alta umidade da região era razão mais do que suficiente para recorrer ao ar-condicionado do restaurante sem pestanejar. Sem contar a quantidade de mosquitos e pernilongos que rondavam sem cessar aqueles que ousavam aventurar-se nas ruas da pequena cidade.


Fim da Estrada

Alguns quilômetros à frente, é chegado um dos momentos mais aguardados por mim na viagem. Próximo à cidade de Abunã (RO), a BR-364 dá lugar à travessia do Rio Madeira que é realizada de balsa. Eram 10 da noite e a escuridão permitia-nos enxergar apenas um refletor na outra margem do rio e as luzes da embarcação. Imagino que se fosse de dia, a experiência seria melhor, mas, obviamente, atravessar um dos maiores rios do país, foi algo extremamente prazeroso. Durante uma hora, entre um e outro lado do Madeira, senti na pele a natureza única da nossa Amazônia. A partir dali, a mesma BR-364 segue rumo ao estado do Acre.
Aguardando a chegada da balsa

Travessia sobre o Rio Madeira

Travessia sobre o Rio Madeira

Chegado o quarto dia de viagem, faltava pouco para chegarmos à fronteira entre Brasil e Peru. Abandonada, a propósito. Além de três agentes da polícia federal, dentro de uma sala fechada na Alfândega, um segurança particular e uma mulher responsável pela limpeza do prédio. Nada além disso na fronteira conhecida recentemente pela entrada ilegal de haitianos no país. Carros brasileiros e peruanos vão e voltam sem nenhum problema. Da parte burocrática quase nenhum problema. Somente Jorge, um dos viajantes, teve que pagar uma taxa de 800 reais por exceder o período permitido para sua estada no Brasil. Da minha parte, a realização de um sonho. Depois de 25 anos, pela primeira vez eu estava indo além das terras brasileiras. Uma cultura diferente, língua e costumes que até então conhecia apenas na teoria. Um coração batendo mais forte neste momento.

Prato de pescado com Inca Kola na cidade de Iñapari (Peru)
Depois de algumas centenas de metros pela Ponte da Integração, lá estava eu: República do Peru. Diferentemente da pacata Assis Brasil (AC), na cidade de Iñapari a fiscalização da polícia peruana era mais rígida e, às voltas do posto de imigração, pequenos comércios garantiam os insumos para quem chegava desprevenido à terra nova. Foi lá também onde tive contato pela primeira vez com a comida peruana. O prato de Pescado consistia em uma porção de arroz sem sal e tempero, uma salada de cebola e repolho e meio peixe cuja maior parte consistia na cabeça do animal. Bora encarar! Também a Inca Kola, refrigerante dono de 70% do mercado peruano, segundo aquele passageiro que estava com a namorada (Thaís) que não lembro o nome. Foi em Iñapari que troquei alguns dos meus Reais pelo Novo Sol peruano, moeda local. Taxa de 1.11 para cada Real com Lavínia, que desde São Paulo seguia viagem conosco. Mais vantajoso para aqueles que levaram Dólares, cuja taxa estava em 2.80 por 1.


Um olhar para a vida

Barracos sob palafitas próximo à cidade de
Puerto Maldonado, no Peru
Durante os três dias de viagem pelo interior brasileiro, fiquei realmente impressionado com a grandeza e diversidade de nosso país. Existe muita desigualdade e muita riqueza espalhadas em solo nacional. Essas discrepâncias, no entanto, em nada se comparam ao iniciar a incursão pelo país vizinho.

A Amazônia Peruana é definitivamente um lugar de contrastes e precariedade. Não são raros os momentos em que o verde da floresta cede lugar às cinzas de uma vegetação morta por queimadas e extração ilegal de madeira. Um pedaço de nosso meio ambiente que é ceifado diariamente por extratores que nada pensam além do lucro predatório. Existem ainda aqueles que lançam-se à sorte da vida em busca de riqueza mineral nas zonas de garimpo na região. Aos trabalhadores ali postados, resta empoleirarem-se em edificações sob palafitas dispostas ao longo da rodovia. Construídas com madeira e lona, abrigam ainda comércios como mercadinhos, restaurantes e hotéis, cuja infraestrutura e o saneamento são praticamente nulos.

Hotel feito em lona na região da Amazônia Peruana


Comércios e hospedarias sob palafitas na Amazônia Peruana 

Para mim, este foi o maior choque de realidade possível. É importante termos algumas experiências adversas para, de algum modo, aprender consigo. A imagem daqueles barracos amontoados ficou marcada por todo o restante do caminho; e fica até hoje, sempre que penso como o mundo é desigual. Como o individualismo social é capaz de relegar pessoas a condições extremamente sub-humanas. As vezes é preciso enxergamos a realidade de fora para entender que aqui do lado as coisas não são tão perfeitas. Por outro lado, essa situação soou para mim como um start, para duas coisas, mais especificamente. A princípio, dar valor à condição que tenho atualmente. Apesar de não ser dos mais abastados, compreendi que sou um privilegiado e que as pessoas que estão a minha volta são importantíssimas para esta condição. Em outro ponto, percebi que é preciso que façamos mais pela sociedade que vivemos. Sair da zona de conforto e realmente fazer a diferença para o mundo que vivemos. Estão aí algumas lições.

Apesar da degradação que a região sofre constantemente, ziguezaguear pela floresta tem seus encantos. E muitos. A cada rio ultrapassado, cada vale percorrido, a sensação é de que temos um lugar que vale muito por ser, apenas. A julgar seu papel no bioma mundial então. A perfeição da natureza é sublime. 
Chuva na Amazônia Peruana
A Amazônia é um local que tem que ser conhecido. Até a chuva, quando deu sua graça durante a tarde, foi um motivo de reflexão. Estávamos no quarto dia de estrada e pela primeira vez presenciamos-na. O perigo da estrada molhada aumentava ainda mais o espírito de aventura que era preenchido com doses de apreensão quando a estrada era encontrada interditada em função de deslizamentos de terra. Apenas uma faixa liberada, barro sobre a pista, o ônibus sendo conduzido a poucos centímetros do morro de um lado e barranco do outro. Mal sabia eu o que ainda estava por vir.


A Cordilheira dos Andes

Fizemos uma rápida parada para o jantar na cidade de Quincemil, localizada entre a Cordilheira dos Andes e a Amazônia. Provei o chamado Menu. Consistia em uma canja de galinha, como entrada, e um Lomo Saltado, uma espécie de bife picadinho frito com cebolas, pimentão e batatas banhados com molho shoyu (eu acho), acompanhado de uma jarra de refresco, que não sei o sabor, mas relativamente gostoso. Tudo por 7 soles. Uma pechincha.

Alimentados retornamos ao ônibus para a subida da cordilheira. Devido à escuridão andina, desci até a cabine do motorista para fazer filmagens do trajeto com o auxílio dos faróis do veículo. A cabine de direção, possuía, além do banco do motorista, um acento para acompanhante e uma espécie de cama, ao fundo, para o descanso de um condutor enquanto o outro seguia ao volante. Era o único local não contemplado com ar-condicionado, sendo que as janelas permaneciam frequentemente abertas.  Não demorou para que parássemos na estrada novamente. Desta vez, um deslizamento de rochas sobre a pista era o responsável pela interdição. Demoramos cerca de 40 minutos para retomar o caminho andino. 

Quanto mais adquiríamos altitude, mais frio eu sentia na pequena cabine de janelas abertas. Minhas roupas? Um chinelo, uma bermuda, camiseta de algodão e um gorro de lã. Mesmo com vestimentas impróprias para a ocasião, assim permaneci até cerca de meia-noite com o consolo de que ali era possível por a cabeça para fora do ônibus e admirar um céu completamente estrelado. Tinha a impressão de que bastava erguer o braço para que pudesse ter em minhas mãos aquele brilho cativante.

Após voltar à minha poltrona, pus uma blusa de moletom e cobri-me com o cobertor que levara a tira-colo. Um cochilo de duas horas, aproximadamente, bastou para chegarmos à cidade de Cusco, único destino de embarque e desembarque durante a viagem. Para os cinco passageiros que ali encerravam seu destino, outros cinco embarcaram rumo a Lima. A cidade de Cusco era a capital do Império Inca antes da colonização espanhola. Como forma de extermínio de um cultura, os europeus destruíram-na quase toda, para reerguer outra sob as ruínas. Apesar de apenas estar de passagem. Ver um pouco da cidade era um dos meus desejos. Infelizmente, devido à escuridão da noite, pouco pude observar ou registrar.

Amanhecer na Cordilheira dos Andes
Minha frustração foi compensada ao despertar para o quinto e último dia de viagem. Ao abrir os olhos, percebi estar percorrendo o alto de uma montanha da cadeia andina. Uma paisagem deslumbrante apresentadas sobre um manto de nuvens que completavam o vale entre um e outro morro. Nada mais era possível ver abaixo, além da alva nevoa que por ali pousava. E assim seguiu-se a viagem até a cidade de Abancay, na região central do Peru. 

Uma cidade grande, encrustada na cordilheira, capital da província de mesmo nome, mas que revelava uma precariedade extrema em suas construções. Assim como o restante do interior peruano, suas ruas são repletas de veículos de origem asiática, fabricados por volta da década de 90. Isso é resultado de um plano de facilidades na importação desses carros, em segunda mão, realizado pelo governo peruano, conforme contou-me sr. Luis. Foi também em Abancay que paramos para comer, às 8 da manhã (10h, no horário brasileiro). Obviamente que eu não comi nada, dada a hora. Apenas uma caneca de um chá local para amenizar a dor de cabeça causada pela altitude. Em uma pia externa, comprida, envolta em azulejos brancos, do tipo encontrado nas escolas públicas, tive a oportunidade de escovar os dentes e um banho de chuá-chuá. 

Ultimo trecho da viagem

De volta à estrada, logo seguimos por um trecho ao fundo de um vale, margeando o Rio Pachachaca Abancay. Uma região de paisagens belíssimas, substituída, em seguida, por mais um trecho incrível de montanhas da cordilheira. E assim restou por todo o dia. Das 10 da manhã às 6 da tarde percorremos os 450 Km que separam as cidades de Abancay e Nazca. Com média de 30 Km/h, nosso ônibus serpenteava as subidas e descidas dos gigantes andinos. Apesar do incomodo da altitude, não tive mais do que dor de cabeça. Outros passageiros sofreram com enjoos e alguns chegaram, inclusive, a vomitar durante o percurso. O grande problema foi a fome que aplacou todos os viajantes, sanada somente às 7 da noite. Pelo caminho, pequenas comunidades com casinhas minusculas, cerca de um metro e meia de altura, construídas em pedra. Também lhamas espalhadas por vastas pastagens à beira da pista. É na região de montanhas que mais capítulos da história são retratados em nossa rota. Era na região desértica entre Puquio e Nazca que o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso escondia-se do governo nos anos 80.

Interoceânica à margem do Rio Pachachaca Abancay

Região de vale à margem do Rio Pachachaca Abancay

Inicio da subida da Cordilheira dos Andes entre Abancay e Nazca

Serpentear da Interoceânica em montanha andina


Montanhas da cordilheira

Planalto andino

Cidade de Puquio, no meio da Cordilheira dos Andes

Deserto andino próximo à cidade de Nazca
À noite, o último trecho da viagem, entre Nazca e Lima foi de reflexão sobre os cinco dias dedicados a chegar à costa do Pacífico. No caminho, a cidade de Ica já apresenta desenvolvimento e modernidade. É um sinal de que a aventura está chegando ao fim. Foram mais de 107 horas até chegar à capital peruana. Mesmo com todas as dificuldades, foi uma experiência única; certamente compensadora. Para mim, foi uito além das expectativas e, com certeza, faria-na novamente. Produzir este documentário foi muito gratificante. Tive certeza que sim. Foi possível. Eu fui capaz. 
Complexo Lacomar  Miraflores, em Lima (Peru)
Hoje, sinto que, de alguma forma, esta produção acadêmica, com recursos escassos e muita vontade de vê-lo acontecer, pode colaborar para a construção de novas narrativas jornalísticas. Que é possível ao jovem sair de sua zona de conforto e amassar barro, como diz o jargão dos professores de Jornalismo. Mas, principalmente, que a sociedade pode encontrar neste projeto de TCC as histórias de pessoas comuns, que assim como tantos, aventuram-se no mundo, seja por escolha, seja por necessidade. Sem dúvidas, carregarei a história de cada um que conheci para o resto da vida.

Assista abaixo ao documentário Do Atlântico ao Pacífico: a viagem de ônibus entre as cidades de São Paulo e Lima